Formas - Arquitetura




As profundas crenças do povo chinês no Além e o extenso culto que tributaram aos antepassados determinaram o importante desenvolvimento alcançado pela arquitetura funerária, que tradicionalmente esteve ligado a um material de construção: a pedra. Embora existam interessantes monumentos de arquitetura funerária na Idade do Bronze e na Dinastia Qin como é o caso da sepultura do primeiro imperador Qinshi Huangdi. Foi a partir da Dinastia dos Han que se começaram a construir os exemplos mais importantes. Destaca-se, sobretudo, a arquitetura funerária dos períodos Tang (sepultura do imperador Gao Zong e da imperatriz Wu Zetian) e, especialmente, Ming (sepultura situada em Changling). Estes conjuntos caracterizam-se pela presença de um enorme túmulo ou montículo, onde se escavavam as câmaras para o féretro e para o mobiliário funerário, que aparece precedido por uma série de estruturas que enfatizam o caráter sagrado do lugar. Tais eram as portas ou arcos cerimoniais, o caminho dos espíritos ou avenida de acesso ao túmulo, que eram franqueadas por grandes esculturas de pessoas e animais e várias edificações como templos e outras dependências destinadas à manutenção e seguimento das cerimônias funerárias.

A pedra foi também o material escolhido para a construção de grandes obras de arquitetura ou engenharia tanto de caráter civil como militar. Entre elas não podemos deixar de destacar a famosa Grande Muralha. Erigida no século III a. C. por Qinshi Huangdi para defender o território chinês dos ataques dos povos do norte, foi reconstruída no século XV, em plena Dinastia Ming. Com os seus cerca de 6.000 quilômetros de comprimento, 7-8 metros de altura, 5,5 metros de largura na sua parte superior, é uma das obras mais visitadas da China.
Ao campo da arquitetura em pedra também pertencem os templos rupestres budistas. O costume de escavar câmaras e capelas de culto budistas, celas e outras dependência para a vida dos monges em rocha viva, na parede escarpada de certas montanhas, chegou à China vindo da Índia através da Ásia Central, juntamente com a religião budista. Este tipo de arquitetura rupestre, de clara origem indiana, teve a sua época de esplender entre os séculos IV e X, sendo os seus exemplos mais notáveis as grutas de Mogao, Yungang e Longmen. Estes conjuntos estava ricamente decorados com pinturas ou esculturas e relevos.

Ligada também ao budismo encontramos uma peculiar construção, tipicamente chinesa, o pagode. A sua origem encontra-se na stupa indiana, monumento, símbolo do budismo, que servia para albergar as relíquias de Buda. No entanto, assim como nos templos escavados, citados anteriormente, seguiram basicamente as regras estabelecidas pelos modelos indianos, neste caso o povo chinês transformou a tipologia original numa obra muito singular consistente numa torre de planta quadrada ou poligonal, cujas dimensões diminuíram em altura, constituída por uma base, vários andares, sempre em número ímpar, cada um com o respectivo teto e uma coroação de alto mastro com venezianas sobrepostas. Construída como edifício independente, ou integrada num mosteiro-templo budista, os materiais utilizados para a sua construção eram vários: pedra, madeira e ladrilho. Esta tipologia foi transmitida à Coréia e ao Japão.

Especial atenção merece uma série de conjuntos, construídos fundamentalmente em madeira, tanto de caráter religioso como civil, como os mosteiros-templos budistas ao ar livre (alternativa chinesa aos citados templos rupestres de origem indiana), ou os grandes complexos palacianos ou residências imperiais. Todos estes conjuntos seguiram tanto na sua distribuição ou organização espacial como na tipologia básica dos seus edifícios umas regras ou modelos criados na China desde tempos muito remotos, que perduraram no tempo quase sem modificações.

Assim, no que se refere à organização espacial, qualquer conjunto arquitetônico chinês, seja civil ou religioso como os citados, apresenta uma vincada axialidade e simetria determinada pela existência de um eixo principal de disposição norte-sul onde se situam os edifícios e pátios mais importantes, e que serve de ponto de partida na distribuição simétrica e na hierarquia dos restantes pátios e dependências de valor secundário. Além disso, todo o conjunto é geralmente rodeado de uma muralha ou cerca que delimita o recinto, ao qual se acede através de uma porta monumental, sempre virada para sul, o ponto cardeal para onde confluem as energias positivas.
Quanto à tipologia arquitetônica seguida na construção das dependências dos citados conjuntos, obedece, em linhas gerais, a um modelo de edifício de planta retangular, de estrutura adintelada, de extensão horizontal, de formas claras e lineares, com um nítido sentido de simetria, harmonia e ritmo por ser construído a partir de um módulo ou unidade espacial fixa.

Estruturalmente apresenta três elementos: a base, o corpo do edifício e o telhado. A base é feita com terra calcada ou gravilha amontoada, revestida de placas de pedra, ou com ladrilho, que tem a missão de elevar o conjunto. O corpo do edifício oferece urna estrutura de madeira (o material preferido na China devido à sua abundância e facilidade de manipulação) constituída por pilares ou colunas exteriores que articulam os muros perimetrais (freqüentemente de ladrilho), colunas interiores e vigas. O exterior aparece pintado de várias cores que produzem urna grande amenidade. O telhado é de grandes dimensões, duplo ou simples, de duas ou quatro águas; tem urna armação de madeira e está coberto de telhas de barro cozido de cores diferentes, consoante a função do edifício. O peso do telhado é sustentado por um complexo sistema de mísulas de madeira embutidas que conseguem transmitir e concentrar os pesos nos pilares e colunas. Muito característica nos telhados (no mínimo desde a época dos Tang), a linha ascendente dos seus ângulos que, além de conferir ao edifício um caráter ameno e leve, permite que no Inverno os raios do sol iluminem e aqueçam o interior.

As regras mencionadas relativamente à organização espacial e à tipologia dos edifícios, podem-se apreciar em exemplos muito diferentes uns dos outros pela sua função e cronologia: o mosteiro-templo budista de Foguang Si, reconstruído no século IX, que ainda conserva o seu pavilhão principal ou sala de veneração das imagens; e a chamada Cidade Proibida, que serviu de residência do imperador e da Corte imperial em Beijing durante cinco séculos (Dinastias Ming e Qing). Edificada nas duas primeiras décadas do século XV e restaurada nalgumas partes durante o período Qing, a Cidade Proibida, constituída por monumentais edifícios de caráter administrativo, representativo e particular, é sem dúvida o mais impressionante conjunto de caráter civil da China.

por E. Baguena