Formas - Caligrafia e Pintura


Pintura Mural de Dunhuang



Caligrafia, a pintura e a poesia constituem as artes maiores da China e são consideradas como as genuínas vias de expressão do gênio artístico individual. Prova disso são os numerosos tratados que os chineses escreveram sobre estas matérias e a longa lista de nomes próprios que conhecemos. Apesar dos primeiros caracteres da escrita chinesa terem aparecido durante a Dinastia dos Shang, foi no período denominado dos Três Reinos e Seis Dinastias que se iniciou a verdadeira arte da caligrafia ou a arte de configurar de forma bonita, expressiva e elegante os caracteres da escrita. Esta mudança substancial em que a escrita deixou de ser um simples instrumento de transmissão de conteúdos para se transformar numa das formas de arte mais estimadas, foi propiciada por uma série de circunstâncias. A primeira foi o desenvolvimento nesta época de um círculo de letrados ou de funcionários cultos que souberam apreciar as possibilidades expressivas e as qualidades estéticas da escrita. A segunda foi a incorporação à arte da escrita dos que vinham a ser os quatro tesouros ou instrumentos básicos de caligrafia: o papel, o pincel, a tinta e o tinteiro. O papel, um dos legados chineses à humanidade, foi o suporte fundamental, juntamente com a seda, da caligrafia e o mais utilizado pelo seu maior grau de absorção da tinta, a sua textura especial e o seu baixo custo. Foi usado em diferentes formatos: rolo horizontal, rolo vertical, em forma de leque ou em forma de folha de álbum. A tinta, pigmento preto proveniente da existência de madeiras ou constituído por massa de fuligem vegetal moldava-se em forma de barra. Quando se queria utilizá-la, esfregava-se sobre urna pedra-tinteiro com um pouco de água, até conseguir diluir a tinta na quantidade e grau de concentração desejado. A sua aplicação no papel tinha de ser rápida, instantânea e segura, pois não era possível nenhum retoque, nem correção. Por fim, o pincel era formado por uma leve haste de bambu com uma cerda de pêlo de animal (cabra, coelho, marta, etc.), pontiaguda e mais avultada na parte superior, e podia ter uma grande variedade de formas e tamanhos.



Pintura Mural Han
No seio da citada classe letrada surgiu Wang Xizhi (século IV), que, considerado como o patriarca da caligrafia, realizou com os quatro instrumentos mencionados uma série de caligrafias que estabeleceram um marco na história desta arte peculiar. A partir de então, a caligrafia foi praticada por muitos artistas que tentaram perpetuar o seu espírito através das suas obras. Estes autores distinguiram-se pelo pessoal, livre e espontâneo traço do pincel sobre o papel, pelas diferentes formas de conceber as composições (ou a relação existente entre o tamanho dos traços e caracteres e a sua localização no espaço), e pelos seus peculiares ritmos de execução. Destes artistas é necessário referimos Mi Fu (1051-1107), Su Shi (1036-1101), Zhao Mengfu (1245- 1322), Zhu Yongming (1440-1526) e Zhuda (1626-1705).

A pintura foi também uma manifestação artística de primeira ordem. Os primeiros exemplos dignos de atenção da pintura na China remontam à Dinastia dos Han, época em que surgem pinturas murais para a decoração do interior das sepulturas, templos e palácios. A partir do período denominado dos Três Reinos e Seis Dinastias e ao longo das Dinastias Sui e Tang, a produção pictórica diversificou-se.

Por um lado, destacaram-se as pinturas murais de caráter religioso budista que, vinculadas às técnicas, iconografias e formalismo do mundo indiano, se executaram entre os séculos IV e X no interior de alguns dos templos escavados na rocha (como foi o caso do conjunto de Mogao ou Dunhuang). Por outro lado, desenvolveu-se a pintura de caráter profano que tocou vários temas como o retrato, episódios de índole histórica ou cenas da vida quotidiana da Corte. Estas pinturas foram representadas não só nos muros dos palácios e mausoléus, mas também noutros suportes, já que, a partir do século IV, artistas como Gu Gaizhi (344-406), um dos primeiros tratadistas da pintura chinesa, iniciaram o desenvolvimento da pintura sobre seda e papel, utilizando o pincel, a tinta, o tinteiro e a cor (pigmentos de origem vegetal ou mineral diluídos em água) como instrumentos fundamentais, que perpetuaram ao longo do tempo. Muito importante foi também o fato de neste período se ter iniciado o gênero da pintura chinesa por excelência, a paisagem, pela mão de artistas como Wang Wei (699-759), percussor da pintura monocromática e da técnica da aguada e Wu Daozi (século VlII). O trabalho destes dois artistas foi continuado por Jing Hao (870-925), pintor e tratadista de pintura, e Li Cheng (919-967), ambos do período das Cinco Dinastias, que, com os seus ensaios e obras de paisagens panorâmicas de grandes cumes e impressionantes vistas, tomaram independente e elevaram o gênero paisagístico à categoria mais alta. A partir de então, a paisagem, entendida não como leito de representação fidedigna e descritiva da realidade, mas como expressão individual do espírito da natureza que é subjacente às aparências, será o principal tema da pintura chinesa.

Foi no periodo Song, um dos mais florescentes da pintura chinesa, que a pintura como expressão artística por si mesma, desvinculada de outros tipos de funções meramente decorativas, representativas, didáticas ou religiosas, começou realmente a desenvolver-se. Da ampla variedade de tendências que encontramos neste período, passamos a comentar as de maior destaque.


Pintura Guoxi
Do período denominado Song do Norte (960-1127), há que mencionar em primeiro lugar o empenho do imperador Huizong (1101-1125) que, tendo criado a Academia Imperial de Pintura, possibilitou que os artistas se tornassem funcionários, elevando assim a sua categoria social, igualando-a à dos calígrafos e poetas. A Academia protegeu a atividade artística destes novos funcionários, estabeleceu regras e promoveu a especialização dos gêneros pictóricos (gênero de pássaros e flores, personagens, edifícios e palácios, etc.), dos quais se destacou o de pássaros e flores. Um dos maiores representantes deste gênero foi o próprio Huizong, que era mestre na representação de pássaros de cores vivas num estilo fresco, delicado, minucioso e realista. Nem todos os artistas, no entanto, se quiseram integrar definitivamente nesta Academia e na condição de funcionários. Muitos recusaram os sistemas de exames e os cargos públicos para se afastarem da Corte e se dedicarem ao estudo da natureza que seria a fonte de inspiração das suas paisagens.

É o caso de pintores como Fan Guan (930-1031) e sobretudo Guo Xi (1001-1090). Este último, embora tenha ocupado um cargo oficial na Academia, viveu entre vales e montanhas e soube como ninguém captar nas suas monumentais paisagens de planos sucessivos sobrepostos o constante fluir da natureza e a sua transformação no decorrer das estações. Também independentes da Academia, pois rejeitaram os cânones e a artificialidade dos acadêmicos, para reivindicarem a necessidade de expressão individual e espontânea da pintura, foram os chamados pintores letrados, entre os quais sobressai Su Shi (1036-1101) e Mi Pu (1051-1107). Homens de grande cultura, poetas, calígrafos, críticos de arte, que geralmente ocupavam importantes postos na Corte, consideravam que a pintura era inseparável da caligrafia e da poesia. Cultivaram primordialmente a paisagem.

Durante o período Song do Sul (1127- 1279), desenvolveu-se uma escola paisagistica, denominada Ma Xia, da qual devem destacar-se os artistas Ma Yuan e Xia Gui, ambos ativos no fim do século XII e começos do XIII. As suas paisagens, de pequeno formato (folhas de álbum e leque), caracterizam-se pelo seu caráter intimo, lírico e plácido, pelas suas pinceladas vaporosas, pela sua luz difusa que dissolve as montanhas e as árvores no nevoeiro. Menos densas que as pinturas dos artistas do Song do Norte, predominam nelas o espaço vazio que sugere nuvens, o céu ou a água. Por fim, neste período também se desenvolve a chamada pintura Chan ou Zen, na qual a influência do espírito desta seita do Budismo foi determinante. Assim, as obras desta escola, que cultivou a paisagem e outros temas relacionados com o Zen (retratos de mestres e fundadores), caracterizam-se pela simplicidade dos seus traços, a sua grande economia de recursos técnicos, pela ausência de qualquer artificialidade e ornamento supérfluo, pela valorização do vazio, pela espontaneidade e rapidez da pincelada, sempre essencial e sugestiva, e pelo monocromatismo. Os seus expoentes máximos são Liang Kai (século XIII) e Mu Qi (1210-1275).

Na Dinastia Yuan estabeleceu-se uma clara distinção entre os artistas que trabalharam para a Corte estrangeira dos Yuan e os artistas independentes que, conhecidos como yimin ou «gente esquecida», viveram afastados dos círculos oficiam e destacaram-se pelas suas inovações na composição da paisagem e pela sua admiração pelos pintores letrados da dinastia anterior. Destes artistas há que mencionar Wu Zhen (1280- 1354), Huang Gonwang (1259-1354), Ni Zan (1301-1374) e Wang Meng (1301-1374) que são os chamados Quatro Grandes Mestres Yuan. Embora com estilos pessoais diferentes, os três primeiros caracterizaram-se pelo seu gosto pela simplicidade e pela procura da beleza interior e espiritual da natureza; Wang Meng, em contrapartida, preferiu as paisagens de composições exuberantes com utilização da cor.

A nova Dinastia Ming apoiou a arte da pintura e reabriu a Academia Imperial de Pintura, fechada no periodo Yuan. Nesta época podem-se distinguir duas escolas principais. Por um lado, a chamada Escola de Zhe, formada por pintores profissionais, entre os quais se destacam Dai Jin (1388-1462) e Wu Wei (1459-1508). O estilo destes pintores descende dos pintores acadêmicos da Dinastia Song e as suas obras, sobretudo paisagens, caracterizam-se pela sua perfeição técnica, a sua pincelada enérgica e o seu gosto pelo pormenor. Por outro lado, encontramos a Escola de Wu, que agrupou pintores afastados dos círculos acadêmicos. Seguidores dos pintores letrados do período Song e dos Quatro Grandes Mestres Yuan, a sua produção distingue-se pelo seu espírito criativo e espontâneo e pelo conceito de paisagem como meio de expressão dos sentimentos como a poesia e a caligrafia. Os autores mais famosos desta escola são Shen Zhou (1427-1509), Wen Zhengming (1470-1559) e Zhen Shun (1483-1544).

Durante a Dinastia Qing houve uma falta de renovação da linguagem pictórica no meio cortesão e dos pintores oficiais e ortodoxos. No entanto, fora dos círculos oficiais destacaram-se alguns pintores que foram denominados «individualistas» e «excêntricos» pelas suas atitudes contrárias ao poder manchu Qing e por rejeitarem os métodos tradicionais e procurarem interpretações pessoais da realidade que queriam representar. Do grupo de individualistas destacaram-se Zhu Da (1626-1705) e Shi Tao (1647-1707), ambos também calígrafos. As obras do primeiro, paisagens e pintura de flores, plantas e animais, caracterizaram-se pelos seus traços simples e soltos, alternados com manchas dispersas, pela forte carga expressiva e pela importância dada ao vazio. A produção do segundo, paisagens tanto com tinta monocromática como com cores, geralmente de pequeno formato, distinguem-se por refletirem uma natureza viva. Também se destacaram os chamados Oito excêntricos de Yangzhou.

por E. Baguena