Formas - Cerâmica

Exemplar de Cerâmica Tang



Juntamente com a caligrafia e a pintura, a cerâmica constituiu a manifestação artística mais relevante do povo chinês, que teve a honra e o privilégio de saber descobrir e explorar ao máximo todas as possibilidades e segredos da argila e da sua cozedura, de tal modo que as suas produções raramente foram igualadas e, evidentemente, nunca superadas. Das mãos dos artistas e artesãos chineses saiu uma variedade extraordinária de peças que cumpriram muitas funções, desde objetos de uso doméstico e quotidiano, passando por objetos rituais e funerários até obras de puro deleite estético.

A história da cerâmica chinesa é uma continua experimentação de materiais, técnicas de cozedura e processos de decoração, encaminhada para uma produção cada vez mais bonita, variada e perfeita. Nas culturas do Neolítico já se produziam peças de cerâmica, principalmente de uso diário, tanto sem ornamentação como decoradas através da aplicação de pigmentos naturais em vermelho e preto que podiam reproduzir motivos esquemáticos, abstratos e de animam. A produção de cerâmica doméstica manteve-se durante a Idade do Bronze e já na época Qin e, sobretudo na Han, as técnicas da olaria foram utilizadas para criar formas muito variadas, figuras humanas e de animam, maquetas arquitetônicas, etc., que faziam parte dos mobiliários funerários.

Foi também na época dos Han que se introduziu uma série de inovações que alterou notoriamente o aspecto da cerâmica chinesa. A mais interessante foi a utilização do vidrado, um verniz à base de óxido de chumbo que, aplicado sobre a superfície da peça e cozido, criava sobre o objeto uma camada brilhante, impermeável e protetora. Este verniz, assim corno outro criado posteriormente de tipo alcalino (à base de óxido de potássio e sódio), misturava-se com outras substâncias; óxido de cobre ou de ferro, por exemplo, dando às peças distintas tonalidades que potencializavam o seu valor estético.

Um dos momentos mais esplendorosos da cerâmica chinesa foi o período da Dinastia Tang, época de grande criatividade em que se deu urna grande variedade de formas e um alto grau de perfeição técnica na produção. Destacam-se dois tipos de cerâmica fundamentais. Em primeiro lugar, a chamada cerâmica San cai ou de três cores, que se utilizou tanto nas figuras de uso funerário, muito freqüentes na época, como nas peças destinadas ao uso diário. Segundo esta técnica, aplicavam-se sobre a peça de massa branca três tipos de vernizes de chumbo que, ao serem misturados com óxido de ferro, óxido de cobre e óxido de manganésio, davam lugar, após a cozedura, a três cores diferentes: o amarelo-ocre, o verde e o azul-violeta. Como se tratava de vernizes muito fluidos, quando eram aplicados sobre o objeto tendiam a derramar-se e a misturar-se, provocando na superfície do objeto manchas e combinações, muitas vezes fruto do acaso, de grande força expressiva e encanto. Em segundo lugar, encontrava-se a cerâmica yue.



Exemplar de Porcelana


Utilizada na elaboração de variadíssimos objetos de uso quotidiano, caracterizava-se pela sua massa cinzenta e, sobretudo, pelo emprego de um verniz à base de óxido de cobre que, aplicado na totalidade das peças, produzia uma tonalidade entre verde-azeitona e verde-mar. A única ornamentação desta cerâmica mono cromática era uma série de suaves incisões realizadas sobre a massa. Por fim, salientamos que a Dinastia Tang teve a honra de iniciar o definitivo. Processo de experimentação que conduziu à criação da verdadeira porcelana. Nascida provavelmente com a intenção de imitar o jade, - a porcelana caracteriza-se pela sua brancura, dureza, pureza, finura, transparência e sonoridade. O segredo das suas características especiais reside na composição da sua massa constituída por caulino, feldspato e quartzo. As peças moldadas com esta massa e secas ao sol cobrem-se de um verniz constituído por feldspato, quartzo e cinza de madeira, e cozem-se a temperaturas altíssimas (1400-1500° centígrados).


O período Song também foi magnífico no que se refere à produção de cerâmica, caracterizada pela profunda beleza derivada das suas linhas puras, a sua simplicidade e o seu monocromatismo. Por um lado, destaca-se a família dos chamados celadons ou qingzhi. São peças monocromáticas, cuja massa contém caulino, que apresentam um verniz verde-azeitona, verde-pálido ou verde-lavanda, e uma decoração que consiste em incisões na massa a reproduzirem temas florais ou num fino estalado na sua coberta. Dentro desta família tiveram lugar quatro variedades, chamadas ru, guan, ge e jun. Por outro lado, produziram-se as chamadas cerâmicas Ding. Embora a sua produção tenha sido iniciada no período Tang, o seu momento de maior esplendor teve lugar durante o período Song. São peças monocromáticas brancas, de massa de porcelana fina, cobertas de um verniz transparente. A sua única ornamentação consiste numa série de motivos vegetais, realizados através de suaves incisões.

Fundamental para o desenvolvimento da cerâmica chinesa foi a Dinastia Yuan, época em que, devido ao contacto com outras culturas, especialmente com a muçulmana, se enriqueceram as técnicas cerâmicas e apareceram traços, tais como o gosto pelo compartimento decorativo, a exuberância ornamental e a associação dos temas florais a conteúdos simbólicos, que serão constantes na produção de cerâmica posterior. Da cerâmica desta época destacam-se dois tipos. Na tradição dos monocromáticos, salienta-se o Qing Yin Bai ou branco sombreado de azul. De formas inovadoras, as suas peças de massa branca caracterizam-se pela tonalidade azulada do seu verniz e pelos seus motivos volumétricos, de temas vegetais, perfeitamente aderidos ao corpo da peça. Mais famoso é o segundo tipo, a porcelana Azul e Branca. A sua originalidade consiste na utilização de um pigmento, introduzido através da Pérsia, à base de cobalto, que dá uma cor azul e que é utilizado para configurar motivos ornamentais, principalmente florais e de animais. O pigmento aplica-se sobre a massa branca da porcelana e, em seguida, cobre-se de verniz incolor e transparente.

A Dinastia Ming assistiu ao grande florescimento da porcelana chinesa. Nesta época intensificou-se bastante a produção, pois não só se fabricaram peças para consumo no país, como também para exportação ao sudeste asiático, mundo islâmico e Europa, onde se tinha gerado uma forte procura. As formas, técnicas e decorações das peças Ming tiveram uma variedade extraordinária. Dentro dos tipos de cerâmica denominados policromos, onde a cor ganha protagonismo, realçam-se, além da porcelana Azul e Branca mencionada, os denominados Doucai e Wucai. Nestes dois casos, sobre fundo branco, aprecia-se uma série de motivos figurativos muito variados feitos através da utilização do pigmento azul, aplicado sob a cobertura de verniz, e de esmaltes de diversas cores aplicados sobre a cobertura. As diferenças entre estes dois tipos são que o Wucai ampliou a gama do Doucai com as cores amarela, turquesa, berinjela e púrpura e que nesta última o pigmento só se empregou para contornar os motivos ornamentais. Juntamente com estas modalidades cerâmicas, desenvolveram-se os monocromáticos, brancos puros, amarelos, turquesas, verde de cobre e vermelho de ferro, de uma pureza e elegância extraordinárias que podiam levar sutis e suaves decorações como finos estalados ou leves granulados.

Por fim, durante a dinastia Qing, a cerâmica chinesa, apesar de alcançar um virtuosismo técnico extraordinário, uma espetacular variedade de formas e um preciosismo ornamental fora do vulgar, perdeu muita de sua pureza expressiva. A introdução de novas técnicas e materiais fez com que, aos tipos de cerâmica realizados no período Ming, se acrescentassem outras famílias como as denominadas verde, cor de rosa e preta, todas com motivos policromáticos configurados com esmaltes. Cada família era família caracterizada pelo predomínio da cor que lhe dava o nome.

Há que se referir também que nesta época se realizaram numerosas peças para exportar para Europa, feitas por encomenda das chamadas Companhias das Índias orientais. Muitas delas, por desejo expresso dos seus compradores, apresentaram motivos decorativos ocidentais que eram reproduzidos pelos artesãos chineses a partir de gravuras e desenhos que lhes eram enviados.


por E. Baguena