Teorias - Fundamentos da Estética Chinesa

Qualquer chinês letrado é simultaneamente pintor e escritor. O manejo do pincel, aprendido na infância conduz naturalmente, pela elegância dos traços do ideograma, à aquarela da pintura monocromática. Há que não esquecer o elemento pictográfico subjacente na escrita chinesa; pintar uma idéia é realizar uma síntese constante do mundo mental com a vida. Uma página escrita é um conjunto de desenhos que representam uma multidão de objetos naturais mediante os seus símbolos abstratos. A influência da Natureza ambiente é fundamental no temperamento chinês; a estética desta arte porá no primeiro plano das suas pesquisas o conjunto desta Natureza: a paisagem, as flores, os animais; o personagem humano acrescenta-se finalmente como um elemento a mais, porém sem qualquer caráter predominante. A harmonia com as forças naturais, a procura do ritmo da Vida cósmica, as grandes sínteses nos seus esquemas preestabelecidos dos objetos, dos seres, das coisas do universo, a concordância dos sons, das cores, das partes do corpo, dos elementos do cosmos, formam a base do pensamento chinês. O budismo levou mais tarde o elemento religioso, místico, o sentido do mistério que faltava na alma chinesa, mas sem abandonar o sólido terreno do real, do prático.[...]

A estética chinesa nunca visou, exceto na época moderna, «a arte pela arte»; a arte, em si mesma, é puramente simbólica, um jogo de ritmos, de correspondências, de evocações artísticas e literárias apenas sugeridas, uma arte abstrata que só utiliza a figuração para que surjam as idéias, os poemas, as sensações, do mesmo modo que uma nota musical faz vibrar por simpatia as cordas correspondentes. A personalidade do artista deve ser esquecida na busca da íntima natureza das coisas. O famoso pintor Xie He, que viveu nos finais do século v, forneceu uma lista dos seis princípios que devem reger o trabalho dum artista: o sentido do movimento rítmico da vida em todas as coisas; o conhecimento das possibilidades do pincel; a semelhança da figuração com o objeto representado; a escolha exata das cores; a ciência da composição e da posição das coisas, e a necessidade de copiar os modelos antigos para captar o ritmo interior e contribuir para que as suas obras perdurem.

A representação do corpo humano foi sempre muito esquemática na arte chinesa, exceto no retrato: esboço de um pescador na sua barca, de um viajante num vale montanhoso. O retrato reservou-se para as representações religiosas e funerárias: monge célebre, doador, antepassado famoso. A beleza grega do corpo da mulher ou do atleta é desconhecida na China.

A composição geral do quadro é diferente, e a ausência de moldura caracteriza a pintura chinesa; em geral trata-se de um rolo horizontal (zhu em chinês, makimono em japonês) de vários metros ou vertical (shu-quan em chinês, katemono em japonês), onde as cenas se sucedem e se adaptam à visão do momento, como a película de uma história. O espectador contempla os vales, os cumes brumosos, atravessa a ponte sobre um rio, escuta o murmúrio de uma cascata distante, encontra um búfalo puxado por um camponês, percebe um pagode perdido numa colina, contorna um bosquezinho... A perspectiva geométrica do quadro europeu com o seu fim num horizonte fixo não tem razão de ser. O espaço é ilimitado e o quadro vibra ao ritmo da Natureza, livre e amplamente representada, com predomínio das montanhas e da água. A névoa e as nuvens conferem-lhe um sentido de profundidade, de vida budista e daoísta, tão importante no pensamento filosófico chinês.

As flores, os bambus de graciosos e finos talos, as árvores, os pássaros, os insetos são desenhados e pintados com minúcia e amor. Os artistas do período Sung (960-1279), profundamente influenciados pelo budismo Chan, tal como acabamos de ver, inclinaram-se para um ramo de árvore florido, para uma rocha de formas raras, para um canário, um macaco ou um flamingo brincando na Natureza, quase sempre à luz da lua. Mas, também aqui, tudo é simbólico para o monge-artista: os animais são símbolos de meditação, alua reflete visões contemplativas e os gestos evocam conceitos metafísicos budistas.

por Jean Riviere, em "Arte Oriental"