Teorias - O Espírito Lapidário

O termo chinês Yu, que comumente se traduz por jade, no Ocidente, na verdade tem conotação mais ampla e abrange toda uma série de pedras especiais, capazes de serem esculpidas e polidas com fins estéticos, como o cristal-de-rocha, o quartzo, a calcedônia, a turquesa, a serpentina, a ágata, a malaquita... Além da textura, da coloração, das qualidades de tato e da sonoridade, conta, para os chineses, o desafio da estrutura interna da pedra. O desvendar da trama de veios, da granulação ou fibrosidade dos cristais, que exige toda uma pesquisa, para que da massa bruta surja a forma ideal, adequa-se á mente realista dos chineses. Esta sempre parte do concreto em direção a um núcleo, que, quando ainda não-visivel, tenha entretanto a possibilidade de ser revelado através de uma rota existente, de atalhos que possam ser tomados em busca da quintessência (Jing), da medula (Sui). Resulta uma transparência que, ao adequar-se á luz exterior, mostra sempre a pureza interior da pedra, sua natureza fundamental, intrínseca. O trabalho do artista reveste-se, então, de significado simbólico, neste tipo de pedra que é Imagem, Ícone.

Escreveu o sinólogo francês L. Vandermeersch: “a práxis chinesa (...) começa pela pesquisa da estrutura conformativa da realidade exterior (...) estrutura à qual deve adaptar-se (...) toda forma (...): o paradigma do raciocínio é o trabalho do lapidário que pesquisa as disposições internas da pedra (...)”. E concluiu então estar toda civilização chinesa, desde sua aurora, marcada pelo espírito de Lapidagem. Tanto é assim que o logos chinês, o princípio de inteligibilidade do mundo, define-se pelo picto-ideograma Li, cujo significado primeiro é, justamente, o ordenameto da trama de veios internos do jade e das pedras que lhe são análogas. “esplendor de forma que é o resplendor da substância”, dizia Mme. Vandier-Nicolas.
A partir dessas conceituações, poder-se-á compreender a importância da pedra na China. Longe de serem considerados apenas por seu valor monetário, o jade e as pedras semelhantes são símbolos que se reverenciam e se revestem de significações filosóficas, morais e mesmo políticas, uma vez que serviam de insígnias de autoridade. Chong Yu – Reverência ao Jade - é traço marcante da sociedade chinesa.

por Ricardo Joppert, em "Oposição Complementar"