História - Uma aproximação a Arte da China e Japão

Qualquer observador ocidental que se aproxime com curiosidade e a mente aberta às manifestações artísticas do Extremo Oriente não só ficará fascinado pela sua beleza e pela perfeição das suas técnicas, mas também comprovará o quão diferentes são as produções da sua própria civilização. A primeira coisa que chama a atenção é a enorme transcendência que a natureza tem na arte dos povos do Extremo Oriente. No mundo ocidental, o homem é o rei da criação, um ser aparte e superior, medida de todas as coisas, que domina, dirige, conquista, manipula e transforma a natureza. Em contrapartida, no Oriente o homem é apenas mais um elemento da natureza, uma parte do todo, que só encontra o seu sentido no respeito, na integração, na harmonia e na sintonia com o que o rodeia. Esta diferente concepção oriental do homem, e a sua relação com o resto da criação, deixaram uma profunda marca na arte.
Explica, para citarmos só alguns dos muitos exemplos existentes, o pequeno lugar reservado à representação pictórica do homem, comparado com o papel protagonista desempenhado pelos temas naturais, flores, plantas, animais e, sobretudo, pela paisagem, motivo principal da pintura do extremo Oriente e insuperável meio de expressão do «todo» em que o homem se encontra integrado.

Explica, também, a ênfase dada às manifestações artísticas, profundamente vinculadas com a natureza, que no Ocidente têm tradicionalmente um valor secundário, como a arte do jardim, ou que nem sequer existem como tais; referimo-nos ao bonsai, ou arte do cultivo harmonioso de árvores anãs, o ikebana ou arte da composição floral de acordo com certas regras e princípios, e o suiseki ou arte da seleção e contemplação de pedras formadas naturalmente que têm o poder de sugerir um objeto ou cena da natureza. [Estas artes tem origem comum na China, apesar de serem popularizadas pelos japoneses – N.T.]

Também é surpreendente para o homem ocidental a diferente valorização que no Extremo Oriente se faz das variadas artes. A arquitetura, arte intelectual e importante no Ocidente, carece no Extremo Oriente de categoria artística, enquanto expressão de um espírito criativo, e as suas manifestações são consideradas como produtos de um trabalho coletivo de artesãos cujos nomes se encontram no anonimato. O mesmo acontece com a escultura. Em contrapartida, são artes maiores no Extremo Oriente a poesia, a pintura e a caligrafia. Esta última manifestação, inimaginável no Ocidente, é considerada como a arte chinesa por excelência. Quanto às artes decorativas, por vezes injustamente chamadas no Ocidente de «artes menores», mereceram no Extremo Oriente um espaço de exceção, apesar de, na maioria dos casos terem sido frutos de artesãos anônimos e especializados. A prova disso é, por exemplo, que o jade, a porcelana ou a seda foram manifestações bastante estimadas pelos chineses e que, no Japão, uma simples chávena de chá de cerâmica pode ser considerada Tesouro Nacional.

Se as formas de valorizar as artes são diferentes, também o são os modos de apreciação do objeto artístico. No Ocidente apreendemos e apreciamos a obra de arte principalmente através do sentido da vista. No entanto, no Extremo Oriente procura-se e aprecia-se também o deleite de outros sentidos. Só uma experiência global do objeto, e não apenas visual, permite captar a verdadeira essência dos materiais artísticos e a sua transformação. Assim, do jade e da porcelana os chineses valorizavam, entre outros aspectos, a sua suavidade e sonoridade. De uma chávena de chá japonesa do período Momoyama, apreciava-se a sua forma invulgar, que se adaptava com perfeição à palma da mão, a textura especial e a rugosidade dos bordos da peça no seu contato com os lábios, o desenho ajustado da boca da peça que permitia a percepção imediata do aroma do chá e a grossura das paredes da chávena que evitava que o som do chá, ao ser mexido, fosse estridente.

Curiosa para um ocidental é também a “aparente" falta de evolução, a continuidade no tempo ou o desenvolvimento linear da arte do Extremo Oriente perante a acelerada e por vezes brusca mudança que a arte da nossa civilização experimenta. Boa parte das causas deste fenômeno residem no sistema de aprendizagem artística do Extremo Oriente. Devido à grande importância que nestas culturas tem a veneração dos antepassados e o respeito pelos mais velhos, ambos difundidos pelo Confucionismo, a aprendizagem artística fundamentava-se na cópia contínua dos admirados mestres do passado. Só depois de adquirir o domínio da técnica e a maturidade artística através da assimilação dos feitos dos mestres da Antiguidade, é que o artista podia adquirir um estilo próprio.

Só nos resta comentar outra das surpresas que um espectador ocidental pode ter ao aproximar-se à arte do Extremo Oriente. Na nossa cultura encontra-se muito enraizada a imagem da arte oriental como algo confuso, barroco, hiperdecorativo e excessivamente colorido, imagem que talvez tenha sido determinada pela importação maciça de peças do período Qing pelo Ocidente, ou pelas chamadas «chinoiseries», peças artísticas que, realizadas nos séculos XVII e XVIII sob uma estética barroca e rococó, utilizaram motivos de inspiração extremo-oriental. Se se realizar uma aproximação com um mínimo de profundidade, esta idéia desaparecerá de imediato. O melhor da arte chinesa caracteriza-se pelo seu carácter essencial, pela pureza das suas linhas e pela simplicidade das suas temáticas. Vejam-se, por exemplo, as peças de cerâmica monocromática dos períodos Song, Yuan e Ming: a essência das pinceladas da pintura de paisagens ou das abstratas formas da caligrafia.

por C. Baguena