A essência medular da civilização chinesa

Excertos do livro de Ricardo Joppert, O samadhi do verde-azul

A civilização da aurora da China, corporificada em tradições orais, usos e costumes, foi tardiamente consignada em textos tornados sagrados (Jing) e representava as observações dos primeiros chefes tribais, profundamente lúcidos diante dos fenômenos da Natureza. Era-lhes imperioso descobrir as chaves da vida pois a terra só gera se o firmamento fecundá-la. Os primeiros governantes detinham, portanto, o conhecimento do mecanismo cósmico. À diferença das civilizações que se preocuparam primordialmente com a morte e o além-túmulo, os chineses sentiram, desde muito cedo, o apelo da vida, vida manifesta num mundo exterior reconhecido como complementar e análogo ao do próprio homem. Os chineses observaram a realidade do Universo circundante e transpuseram-na, a essa realidade, para o campo do espírito. Assim, o cerne de seu pensamento exemplifica-se no processo de crescimento de uma só planta: a semente, colocada na terra, germina por ação da chuva (o sêmen celeste); o vegetal percorre espontaneamente o inteiro ciclo vital e decai, apenas para deixar o gérmen do futuro e transubstanciar em solo enriquecido o corpo decomposto. Perceberam os chineses que a Natureza opera sob o império das mutações desenvolvidas em ciclos: as estações do ano foram o exemplo básico. Compreenderam que todos os elementos do Universo, inclusive o próprio homem, eram co-participantes de um mesmo ritmo. Houve, para eles, revelada em toda parte, uma integração harmônica. Tudo giraria em torno de um eixo cósmico pois era necessário conceber uma Viga-Mestra (Taiji ou T'ai-chi), sustentáculo do processo: a repetição de um ciclo pressupõe ordem e não caos;as mutações obedecem a ritmos imutáveis.

Na China agrícola foi, portanto, a Natureza que primeiro forneceu os dados para a interpretação da vida... interpretação, na verdade, equivalente de interpenetração. E, como o ponto de referência não foi o homem, que sabe que vai morrer e teme a desintegração corporal, a visão chinesa do processo vital não foi amarga, nem sombria: participar de metamorfoses dentro de um fluxo energético regido por leis eternas foi encarado com alegria. Zhuangzi, antigo filósofo Zhou, teve, em relação às leis universais, uma atitude que, no dizer de Arthur Waley, foi "não somente de resignação ou aquiescência mas de aceitação lírica e quase extática" (Cf. Waley, A. The Way and its Power, London, 1939, pg. 54).

Procuraram-se, então, sinais esclarecedores dessa comunhão vivida no mais profundo da mente, no plano intuitivo do intelecto. Já tivemos ocasião de assinalar que os mitos dos primeiros tempos da Civilização na China não pretendiam glorificar pessoalmente a monarcas mas consignar a conquista de todo o grupo no início de cada nova era. A tradição levou o mais fundamental daqueles textos tornados sagrados, acima citados, o Yijing (I Ching) (Livro das Mutações), a registrar Fuxi como o primeiro chefe chinês que teria observado os signos de coerência das leis de manifestação do cosmo. Trata-se do representante de uma sociedade imediatamente anterior à do início da fase agrícola que, por compreensão da integralidade do mundo, já trazia o espírito organizado e organizador que forçosamente acarretaria o abandono do nomadismo da caça e pesca dos primeiros tempos e a preferência pela evolução social estruturada no sedentarismo da agricultura, único meio de vida quando se deseja viver o total e não o parcial.

0 Xici ou Grande Apêndice do Yijing, cuja autoria a tradição atribui a Confúcio (Richard Wilhelm acreditava que certas seções do Xici poderiam atribuir-se aos discípulos de Confúcio ou a seus sucessores. Cf. Wilhelm Baynes, The I-Ching, New York, Princenton Universitv, 1970, liv), descreve a experiência da descoberta das leis abissais (e espontâneas) que regem a vida:

"O Yi ('Livro das Mutações') é o paralelo do Céu e da Terra; assim, pode tecer o Caminho (Dao) do Céu e da Terra (Seção I, Cap. IV).

"Na antigüidade, o clã de Baoxi (Fuxi ou Fohi) recebeu o governo do povo. Levantando a cabeça, investigaram as Imagens no Céu. Abaixando a cabeça, investigaram as Leis da Terra. Contemplaram os traços dos pássaros e dos animais (levando em consideração), as características dos diferentes solos. Diretamente, captaram (os sinais de coerência) no próprio corpo; indiretamente, captaram-nos também nas (outras) substâncias. Assim, criaram os oito trigramas (Bagua), para simbolizar (tong = intercomunicar) a Energia (de) (De: Poder de realização do Absoluto em domínios particulares. Cf. Joppert, R., Op. Cit. pg. 112) da Iluminação manifesta (Ming) (Ming: Expressão da Luz Total (iluminação e reflexo) Cf. pg. 28) da Essência Absoluta (Shen) (Shen: o Absoluto cf. pgs. 19, 41, 44); para particularizar (lei) as qualidades intrínsecas das miríades dos seres". (Seção 11, cap. 11).

"Os sábios chineses declaram com um punhado de palavras as conclusões de uma vida profundamente vivida". Assim explicou um chinês contemporâneo (Hung Siu, de Hong Kong) o espírito de síntese das escrituras que veiculam o pensamento de seu povo. Esse pequeno texto do Grande Apêndice descreve, na verdade, uma experiência Humana integral. Trata-se, em suma, de "uma vida profundamente vivida", como tão bem interpretou o mencionado representante atual da raça: a percepção dos fenômenos exteriores, a compreensão dos fatos interiores do indivíduo, a consciência da interligação entre mundo objetivo e universo subjetivo, pela visão, possível através da leitura dos sinais de coerência, de que a mesma Essência opera em ambos e, finalmente, a tradução sob a forma de símbolos das leis constantes que se manifestam no processo da particularização dos seres: o que de homogêneo perdura sempre no heterogêneo.

0 ato de levantar a cabeça em direção ao céu e de baixá-la para a terra correspondera, para Fuxi ou Fohi, a um ritmo binário que estimulara o potencial da vida. "Por intuição e por reflexão aprofundada aplicadas à vibração universal, à oscilação perpétua das duas atividades, (Fuxi ou Fohi) compreendeu que tudo está necessariamente sempre em movimento; esse movimento varia com o tempo e de uma maneira exata e regular. Nada está em repouso no universo. Pela contemplação, ele penetrou profundamente na própria obscuridade e descobriu achar-se essa obscuridade repleta de uma substância cuja natureza não podia a nada ser comparada no mundo iluminado mas que possuía uma atividade produtora do movimento; essa atividade produzia-se, ela própria, por dois impulsos opostos que se atraíam mutuamente, como o mostravam todos os fenômenos do mundo, pois eles eram a causa última dos fenômenos... (Fuxi) designou o que sentia nas profundezas de seu trabalho metafísico pelo nome de "Grande Vazio" (Daxu)... 'natureza íntima' ou 'Universo-Éter-Pré-polarização'... não seria a obscuridade ela mesma mas o que a produz... (Ohsawa, Georges (Nyoiti Sakurazawa) Principe Unique de la Philosophie et de la Science d'Extrême-Orient, Paris, J. Vrin, 1978).

Assim, na Essência do Não-Ser (o Não-Ser do Não-Ser-Wuwu) desencadeia-se o movimento em direção ao ser particularizado. .. O Caos, total potencialidade, pode apenas ser pressentido mas é desprovido de qualquer nexo. O Cosmo, por sua vez, é sempre coerente. Operando-se a passagem do Não-Ser ao Ser, isto é, quando a espontânea Energia realizadora (De) dinamiza a Luz Incubada (Baoguang) (Zhuangzi, cap. 2) do Absoluto, forçosamente a manifestação deixa traços, linhas de harmonia que o Infinito. mostra no caminho de particularização de sua Essência. Foram tais linhas que os chineses da época de Fuxi reconheceram no Universo. A noite separa-se do dia pelo traço divisório, no horizonte, entre luz e sombra, símbolo de uma organização: o emblema primordial do Ser: a Unidade Absoluta (Taiyi). Na pura capacidade — total disponibilidade — do caos pré-cósmico, a interação decorrente do mútuo despertar das Essências naturais que engendram a vida — Yin e Yang — produziu a separação entre luz e sombra e essa criação deixou um marco. Assim, os chineses representaram a Unidade (Yi) por uma linha horizontal. Para a idéia de signo de coerência — a que chamam de WEN — imaginaram duas linhas entrecruzadas (porque o caos se organiza por inter-relação).

Já no ano 100 de nossa era, o mais antigo dicionário etimológico chinês, o Shuowen, escrito por Xu Shen, dizia:

"Wen desenha-se, hoje, de maneira adulterada mas é a imagem de relacionamento".

"No interior desse termo (Wen), resolve-se a oposição que é, talvez, habitual colocar entre fundo e forma. O fundo é o caos, onde tudo se encontra originalmente confundido. A forma é o que organiza o caos, arrancando-o da inexistência. Wen não é exterior mas interior à natureza (do ser). Ele anima o que organiza, é força instauradora" (Vandier-Nicolas, Nicole: Art et Sagesse en Chine: Mi-Fou (1051-1107), Paris, Presses Universitaires de France, 1963).

"Wen, enquanto Energia realizadora (De), quão grande! Concomitantemente com o Céu e a Terra foi gerado!" (Liu Xie, Wenxin Diaolong, Yuandao, Guoxue Zhenglishe, Taiwan, 1976).

Wen é, assim, imanente à criação. E, para significarem no antigo contexto da sabedoria o conceito de Absoluto, os chineses empregaram o ideograma Li, que o Shuowen define como "aquilo que governa o jade": na superfície uniforme da pedra (que é branca, em estado absoluto de pureza), os veios vão marcar uma particularização; é através deles que cada exemplar de jade será especial: são os Wen do jade, aquilo que, por organizá-lo, o transporta do homogêneo de uma pedra sem variações ao heterogêneo de uma pedra venada. É essa manifestação da Origem única no campo do múltiplo sem, entretanto, perder-se a consciência da Essência primordial que dá aos chineses a imagem do Absoluto. É esplendor de forma, que é Resplendor de substância!

O clã de Fuxi soube perceber, distinguir os Wen da natureza e diretamente identificou-os no próprio indivíduo. A coerência dos sinais tornou-lhes evidente a integralização da vida. Assim, para que a noção não se perdesse, transpuseram essa realidade para o campo dos emblemas: gráficos da idéia, que concretizassem, para a mente, o que a observação fizera concluir. As verdades cósmicas representaram-se pelos trigramas e hexagramas do Livro das Mutações; as realidades das formas particulares foram constituir os desenhos da escrita— também chamados "Wen".

O Dao (Absoluto) possui seus Wen específicos:

"Negro e amarelo (Caos original) misturaram-se (para constituir as outras) cores;
Quadrado e Redondo corporificaram-se para dividir as formas; Sol e Lua superpuseram seus discos para, por suspensão,
Criarem, magníficas, as Imagens no Céu; Montanhas e Rios entrelaçaram-se, para formar os acidentes geográficos:

Esses são os Wen do Dao" (Cf. Wenxin Diaolong, Yuandao, op. cit.).

O homem, que pode entender o processo de polarização das Essências básicas (Yin e Yang), processo esse que desencadeia a manifestação do absoluto, é o "coração (a mente ou o cerne) do Céu e da Terra" (Idem.).

"Se até mesmo as coisas sem consciência mostram (a Essência) pela riqueza dos sinais exteriores, como seria possível que os seres providos de mente não revelassem wen?" (Idem).

Já vimos que, na própria China de hoje, o que se sente num lugar como Xi'an é a integração do particular no universal.

O pensamento chinês tem uma concepção totalmente or-ganicista. Seu domínio é o do "Absoluto transpessoal do Não-Dualismo, a um tempo radicalmente imanente e transcendente à sua manifestação" (Cf. Vallin, Georges: La Perspective Métaphysique. Paris, Dervy Lyvres, 1977). Tudo transcorre num contexto organicamente fechado (um mundo cerrado, mas sobre o Absoluto): cada órgão pertence ao Grande Órgão mas é também o Grande Órgão em si mesmo porque, dentro do micro-órgão, o funcionamento é inteira projeção do Macroórgão e o Macroórgão só funciona porque cada microórgão age como Macroórgão. Existem apenas universos que são projeções do Universo, uma multiplicação ad infinitum da Criação, à maneira de "facetas de um mesmo prisma permanentemente irradiante" (Cheng, François - L'écriture poétique chinoise. Paris, Seuil).

Diz o Yijing: (Yijing, Xici (Grande Apêndice), Seção I, cap. IV)

"Sobre a Terra e no Firmamento (tudo) se estende (por meio de correspondências). . .realizar-se é poder ser integral; poder ser integral é a Obra do Sábio (intuitivo) (Shengren) (Shengren, que poderíamos tentativamente traduzir por Luminar. Figura de base dos primórdios da Civilização, o Shengren possuía intuitivamente a Sabedoria integral da vida. Seu domínio é o do chamado arquétipo da Idade de Ouro).

A imagem é a de um ovo: para o mito da criação do Universo, os chineses conceberam um Ser Primordial, Pan Gu, cujo corpo se teria transmudado, no interior total do espaço, nos diversos elementos que consubstanciam o mundo heterogêneo:

"Porque (a unidade) Céu-Terra se encontrava em estado de primeva potencialidade criativa (hunlun), como num ovo, Pan Gu nasceu em seu interior. (Passados) éons de tempo, rompeu-se Céu-Terra: a transparência da clara (Yin) formou o Céu, o opaco da gema (Yang) formou a Terra. Pan Gu, no centro, sofreu nove mutações: seu Espírito Universal (Shen) incorporou-se ao Céu e sua capacidade intuitiva (Sheng), à Terra... o Céu atingiu o zênite; a Terra, o nadir: Pan Gu cresceu ao máximo e, em seguida, pendeu para a morte, metamorfoseando o corpo: o hálito tornou-se vento e nuvens; o olho esquerdo, o sol; o olho direito, a lua; os. quatro membros e as cinco vísceras, as quatro extremidades da Terra e os cinco picos (sagrados); o sangue, os rios e as torrentes; as veias e as artérias, os acidentes geográficos; os músculos e a carne, os campos e os montes; os cabelos e a barba, as estrelas e constelações; a pele e os pelos, a grama e as árvores; os dentes e os ossos, os metais e as pedras; o esperma e a medula, as pérolas e os jades; o suor, a chuva e os alagadiços"...

Três ordens — Saneai (os Três Gênios) — a celeste, a terrestre e a humana — vistas como provenientes da mesma unidade primordial, dinamizada a partir do estado de "primeva potencialidade criativa", equivalente à total disponibilidade de produção. É o Não-Ser do Não-Ser (Wúwú), de que fala o Zhuangzi, o Grande Vazio (Daxu) anterior a todo início, única realidade absoluta, porque existe fora do contexto do dualismo. O ambiente de pura capacidade do caos pré-cósmico define-se, em chinês, por "Huntun", "Hunlun" (Liezi), "Kun-lun", "Kuntun" (Yijing).

As expressões ligam-se à idéia do "que está fechado, como num ovo", "no interior de água turva", "em estado primordial, inconsciente, de mundo incriado" (Cf. Laozi, cap. 25: "You wu hun cheng, xian tian di sheng": Houve uma Substância primordial, incriada e completa, existente antes da criação do Céu e da Terra"). O macrocosmo, antes de sua criação, esteve em "hun" ou "hunlun", mas "hunlun" repete-se a cada momento, porque traduz uma noção atempo-ral, a total capacidade que é absoluto fervilhamento de potência vital, premissa de qualquer realização. "Huntunshi" — o "Homem do Caos" - é a denominação de Pan Gu como Ser Absoluto, enquanto Viga-Mestra (Taiji), regente da particularização. Esse Ser é, ele próprio, o mundo, porque nele transformou o corpo e as essências: o macrocosmo gerou os microcosmo mas neles sobrevive integralmente.

A percepção do inter-relacionamento foi transposta para o domínio do símbolo. O símbolo, meio-concreto (mundo objetivo) e meio-abstrato (mundo subjetivo), é o elo entre a imaginação da mente e a realidade que lhe é exterior. Ele representa a única maneira de a mente, pura imaginação, absorver o externo, concreto total, sem corromper o sentido desse último. O símbolo real evita a arbitrariedade do processo mental e é a garantia da lucidez.

NOTA: A figura geométrica de um triângulo equilátero, em cujo vértice está o símbolo, estabelecendo a ligação entre uma e outra base (respectivamente, o mundo objetivo e o mundo subjetivo), foi proposta pelo Prof. François Cheng em seu Seminário de Filosofia Chinesa, em Paris, em 1979, com base em Lacan.

Para representar a integralidade das três ordens criadas por metamorfose de uma única Essência, os chineses servem-se do ideograma Wang — três traços horizontais ligados por um vertical: a unidade simples expande-se na tríade mas cada traço projeta o outro e os três só existem pela organicidade, estruturada pela linha vertical.

Apesar da diversidade aparente, todo o Universo atravessa processos análogos de criação, amadurecimento, decomposição e transformação. Assim, concluíram os chineses que a fonte geradora de todos os fenômenos era a mesma: conceberam um fluxo energético no qual tudo está imerso e dentro do qual a existência, como a vemos, é apenas um momento em que alguma energia se concentrou, para logo dispersar-se e reincorporar-se ao Infinito. Compreendendo o sentido absoluto desse tecido energético, os chineses sentiram que seria impossível dar-lhe um nome específico: passaram a designá-lo de DAO, embora reconhecessem que se tratava apenas de uma interpretação vaga. DAO significa Caminho, Rota, Abrir ou seguir um caminho. Os chineses queriam significar que o Princípio Infinito poderia ser pressentido mas não racionalmente apreendido: deixar-se levar pelo ritmo natural das mutações era o Caminho que mostrava a realidade da vida agrícola daqueles primeiros chineses no vale do Rio Amarelo.